quinta-feira, 22 de maio de 2008

A fuga

Uma vez, quando criança, inventei de 'fugir'. Qual não foi minha decepção ao descobrir que o mundo era maior do que a esquina da minha casa. Às vezes fico decepcionado por não ter suficiente coragem e disponibilidade para fazer isso novamente. Estranho, não?
E começo a pensar. Como fugir? De onde? Para onde? Com quem? O que levar?
Fugir sem nada, só com a roupa do corpo, que tal?
Camiseta amarrotada, calça larga, sandálias Havaianas no pé. Dinheiro no bolso? Nenhum. Só a disposição. Para sair, basta abrir a porta suavemente, fechando o trico com cuidado. Ninguém há de escutar. Desço pelas escadas, não há vivalma por esse caminho. Vou pela garagem, para evitar contato humano. Venta, penso em pegar uma blusa, mas não, uma prova de fraqueza, logo no início, assim não dá. Na portaria, saio pela saída dos carros, fingindo ignorar os veementes protestos do porteiro. Subo a rua de casa, já começo a sentir o pé sujo da poeira do asfalto de má qualidade. Começo a ver as primeiras vacas. Penso no ar bucólico que ainda posso ter perto de casa, ar este com dias contados pela especulação imobiliária. Penso que poderia agir. E decido voltar. Fugir não é o melhor que posso fazer. Tergiversar é tentador, quiçá perigoso. Decido voltar para ler, para adquirir aquilo que nunca poderão tirar de mim, ao contrário das vacas que tanto aprecio ao acordar de manhã, algum conhecimento que me fará sair deste mundo, por instantes. Chego em casa, ninguém se deu conta de que havia fugido. Desisto de ler, deito e durmo. Melhor fuga não há.

Um comentário:

Marcel Gustavo disse...

"Em uma noite escura
de amor em vivas ânsias inflamada
Ó ditosa ventura!
Sair sem ser notada
já estando minha casa sossegada"

(Procure por esse texto de São João da Cruz.. é muito bonito e tem a ver com esse seu post)

Abraço!