Não quero começar com ladainha velha, mas dizem que sorrir é o melhor remédio.
Melhor remédio para quê? Para quem?
Para começar, sorriso é uma palavra medonha, risível, propícia para um, ora pois, sorriso.
Não necessariamente trespassa alegria. Pode ser o cúmulo do fingimento, e do cinismo. Mas também pode ser a forma de demonstrar felicidade dos timidos.
Gregório era assim. Cínico, mas tímido. Só sorria quando conveniente. Vergonha de sorrir pelos dentes caninos um tanto sobressalentes na bocarra de fauno que possuía. Só o temor mórbido por médicos, dentistas, enfermeiras e afins justificavam aqueles dentes. Era cínico por sempre chegar atrasado e dizer que havia perdido o ônibus, sendo que todos sabiam que ele vinha a pé, não só pela notória sovinice, mas pelo fato de morar a menos de 15 minutos do expediente.
Era tido como inseguro, porém preciso; pouco tátil, porém com boa acurácia nas ações.
Mateus sorria, e muito. Sorriso importado, havia feito seu tratamento ortodôntico com um dentista que se dizia formado nos EUA, mas todos sabiam que era formado numa faculdade de menor fama. E Mateus teria mais motivos para sorrir agora. Esperou por anos aquele momento. Tinha medo de pegar a pessoa errada. Ao pensar que tudo finalmente iria dar certo, sorriu mais uma vez, sozinho, no espelho. Era bom no diálogo, mas ruim na avaliação; crítico em demasia, mas conivente com os erros.
Gregório não era sensitivo, mas acordou com um temor estranho aquele dia. Acho que foi aquele maldito macarrão à parisiense que me trouxe essa azia, pensou. E sorriu. Até aquele momento ninguém sabia de nada, e nem saberia. Por mais que quisesse sair dessa vida, sorrir, mudar, algo o detinha.
Mateus acordou, e se barbeou. Dias especiais merecem trajes completos, e com a graça de um dândi pôs até colete e chapéu panamá, para combinar com a fatiota de casemira especialmente feita para ele por seu Candinho, e não pelo Germano Petersen, como ele sempre dizia. Mas, estranhamente, não teve vontade de sorrir.
Chegar ao escritório, aquele dia, foi difícil para os dois, devido à forte chuva. Gregório chegou, resmungou bom dia e sentou em sua cadeira, já vislumbrando o quão maçante seria o dia. Mateus chegou quieto, como um gato, e foi direto para a mesa de Gregório.
Ao ver-se frente a frente com seu algoz, Gregório gelou. Tu és homem de sorte, disse Mateus, mas hoje ela acabou. Nem deu tempo para sorrir, pois a testa coberta pelo chapéu panamá foi atingida por um tiro vindo da pistola Walther que Gregório guardava para aquele dia. Bom na acurácia. Bom na precisão. Ao ser levado preso, Gregório pensou, por quê demoraram tanto para descobrir. E sorriu, com seus dentes de pastor alemão.
quarta-feira, 17 de setembro de 2008
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