Nunca gostei de falar que tinha ídolos, sempre por medo de ir contra a religião e crer em algo tão alto quanto Deus. Tenho consciência (logo eu, tão crítico da ignorância consciente) de que tal visão é estrita, mas ainda assim continuo a agir da mesma maneira.
Falemos então de heróis. Não tive grandes heróis na minha infância, no mais muito carinho e respeito pelo meu pai, mas sempre fui obcecado pela busca de algo que não fosse palpável, algo que não fosse herói.
Foram 20 anos e alguns meses, se não em busca, mas ao menos à espera, à espreita por qualquer movimento um pouco diferente que possibilitasse a descoberta do tal herói, que tivesse vivido e feito algo enquanto eu vivesse e tivesse consciência de seus atos.
Demorei, e tenho medo de estar precipitado. Devo dizer que não tenho, nem jamais terei heróis, porém este homem foi um que chegou perto.
Acompanhei por dois longos anos a ascenção deste homem, sua firme atuação em um dos países mais pobres do mundo. Fernando Lugo representa a esperança do seu povo, personificando o 'pay' que seu título de bispo da Igreja Católica já lhe concede por direito e costume popular. Decidir se engajar num país tão pródigo de pensadores e benfeitores, e rico em figuras nefastas em sua história, como, atualmente, o general Lino Oviedo e o ex-presidente Nicanor Duarte Frutos, é para poucos, e corajosos. Se ele conseguiu negociar com o outrora irredutível Joseph Ratziger, Sua Santidade Bento XVI, para obter a tão necessária licença de função, algo inédito na Igreja Católica, para respeitar a Constituição paraguaia e assumir o seu tão merecido cargo.
A primeira ação será a renegociação, justa, sim, mesmo sendo brasileiro, após estudar o caso, conclui isto, do tratado de Itaipu, onde a empresa Itaipu Binacional compra o excedente de energia hidroelétrica por direito paraguaia a preços até quatro vezes menores que os cobrados no mercado internacional por megawatt.
Tenho consciência de que nas relações internacionais não há lugar para benevolência, mas sim interesses, porém esta é uma questão prática. Para quê termos um inimigo em potencial se podemos cooperar? Nada de necessidade de autoflagelação, que a Guerra do Paraguai atrasou aquele país irremediavelmente em seu progresso. Nada disso, apenas negócios, que torço para que sejam bem cuidados pelo Bispo Lugo e seus auxiliares.
Na esperança de que o Pay Lugo não me decepcione muito e logo (ninguém é perfeito, sempre há espaço de margem de erro, pela humanidade de todos), despeço-me.
Pay Lugo, meu quase-herói.
domingo, 14 de setembro de 2008
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